Observação de Aves e o Amor a Natureza

A natureza sempre fez parte da minha vida e as aves sempre foram protagonistas! Pra comer quando criança, tinha que estar no quintal vendo o tico-tico para deixar minha mãe me dar mais uma colher. Lições de casa, só trepada em alguma árvore e após correr muito no quintal brincando com terra. Uma vida simples, em uma pequena vila, que até hoje não tem padaria e nem farmácia, mas tinha muito afeto, muito amor e alegria! Aos poucos fui crescendo, as exigências aumentando e para ter possibilidades melhores de educação nos mudamos para um bairro no meio da cidade. Foi tudo triste e diferente, longe da família, dos amigos, sem poder deixar a bicicleta na rua e poder encontrá-la no dia seguinte, com as pessoas mal se falando na rua. Enfim, tinha ganhado “melhores condições e mais conforto” com acesso a todas as facilidades da cidade. Mas, minha alma estava lá…

                E com o tempo passando, vai chegando a cobrança por todos os lados, do ter que ser alguém, ter que ser…Bem, como assim ser alguém? Tem que ser…O que vai ser? Simplesmente sou, já sou! E esse ser vai nos trazendo os personagens.  Ainda muito jovem, lá pelos meus 14 anos eu já sabia que precisava me aventurar, conhecer lugares e pessoas, viver por aí viajando! Era isso que eu queria como trabalho! Mas, um dos primeiros personagens foi a professora, dar aulas para crianças, interagir com pessoas e quem sabe mudar o mundo. Esse desejo todo de mudar o mundo, de contribuir pro coletivo, pro bem do planeta sempre foi muito presente e acabou me levando até a Biologia. E foi aí que me reencontrei com as aves. Elas surgiram novamente em minha vida, para me dar asas, pra voar e SER, apenas SER, sem ter que…

                A paixão foi tanta que virou a minha “causa”, a minha missão de vida! Desejei muito, como um sonho trabalhar pela preservação das aves. Em dois anos lá eu estava, trabalhando por elas. E nesse lindo trabalho que cresci, amadureci e floresci. As aves me levaram para muitos lugares, realizando o meu sonho de conhecer gente e de viajar. Foi como acordar de um sonho e ver tudo que eu sempre quis ali, acontecendo. E dentro dessa passagem de 8 anos como bióloga da conservação que me vieram grandes aprendizados e reflexões, culminando no processo de transição. Estava lá, eu, por muitas vezes como educadora ambiental, no discurso, não pode caçar, não pode cortar árvores, não pode desmatar, não pode poluir os rios, não pode, não pode, não pode…É tanto não pode! rs

                E foi assim, no meio de tantos discursos, com todo “status”, carreira promissora, bem sucedida, “reconhecida”, salário “garantido” no final do mês, “estabilidade” que eu vivia. Até que vieram as inquietações: hummm, ok….estou falando para esse senhor que derrubou uma única árvore para a lenha da semana para cozinhar para a família. E eu? Quantas árvores eu derrubei essa semana para manter o meu estilo de vida? Quantas árvores se foram para eu ter todos esses móveis em minha casa? Quantas árvores se foram para eu ter energia? E para ter energia para produzir as minhas roupas, meu celular, todas as embalagens que compro semanalmente no supermercado? Afinal, quantas árvores eu estou derrubando?

                Será que são mesmo as comunidades locais os grandes “vilões” da conservação da natureza? Ou será mais fácil não assumir responsabilidades e olhar pra si? Será mais conveniente apontar o dedo ao outro? Claro, já que sou graduada, moro na cidade, sou “bem sucedida” como poderei eu estar causando algum mal a natureza? Esses são os contrapontos, mas no momento que se abre essa porta, os questionamentos não param. Ao observar as aves voando com toda sua liberdade, mas ao mesmo tempo perceber que esta liberdade, está sendo roubada. Sim, roubada! Chegaram mais e mais reflexões. Aves com a liberdade roubada todos os dias e pelo estilo de vida que escolhi, todo pautado no consumo desenfreado que faz que com venha o sentimento de possuir, de ter e de crer na ilusão de que precisamos. O que precisamos mesmo? Quantas aves morrem pra sustentar essa vida? Quantas aves morrem para todas essas estradas, hidrelétricas, linhas de transmissão, poluição que são sustentadas pela vida que escolhi? Quem gera toda essa demanda?

                Foram anos sendo bombardeada por todas essas questões, que me deixavam cheia de angústia e aflição. Em certos momentos, sentia que ficar dentro desta grande contradição não estava me fazendo bem, não era eu….não sou…Mas, então, o que sou? E assim começou a busca, sobre formas alternativas de viver e de estar em harmonia com a natureza, sendo parte dela e fora dessa lógica de dominador e utilizá-la como recurso. Como me inserir? Como cocriar? E assim, achei a permacultura, as ecovilas, a agroecologia e tudo isso foi me levando a me aventurar nesses temas e ter um novo olhar sobre a vida, sobre o ser “bem sucedido”, sobre o status…Senti que tudo aquilo que eu tinha vivido nos últimos anos, não se passava que um conto de fadas muito bem contado e muito sedutor. Daqueles que parecem ser reais e que ficamos de olhos fechados como se fosse a vida real. De repente, foi como se uma cortina de véus tivesse sido aberta e eu conseguisse enxergar que a minha grande contribuição para a natureza e para as aves era apenas ser eu mesma, não a bióloga da conservação com uma carreira promissora. Apenas ser e estar inserida na natureza, mudar, sair da cidade, viver a vida simples, sem tantas necessidades, sem tanto consumo. Isso que eu precisava ser, o que eu sentia em minha alma. E não aquilo que todos esperavam, não a garota da cidade que anda de carro, anda muito de avião, tem dezenas de peças de roupas, compra coisas todos os dias, produz kilos e kilos de lixo, faz as unhas toda semana, mas tem um trabalho super legal! Está salvando a natureza….rs Sim, contribuições mil e me sinto muito agradecida e honrada com diversas conquistas e muitas coisas boas e transformações que gerei em algumas pessoas. Mas, e a minha transformação? Eu seria a mesma? Até que depois de acolher todos os medos, o medo de não ter grana, o medo de não ter trabalho, o medo de não ser “reconhecida”, o medo de não estar mais nos círculos sociais, o medo de ser chamada de louca, o medo de falarem virou hippie e largou tudo, o MEDO! Só ele impedia de me alinhar com a minha essência…

                Até que depois de tantos processos de acolhimento de todos os medos, eles dissiparam e veio aquele sentimento no coração: agora é a hora, hora de mudar, hora de romper laços, hora de deixar ir, hora de semear uma nova terra. E assim, veio a decisão, decisão de romper, de cortar os vínculos com a cidade e o estilo de vida consumidor, consumidor da natureza…A hora de ser, sabe aquilo de seja você a mudança que deseja ver no mundo? Essa foi a hora, o discurso não cabe mais dentro do meu ser, a ação, o exemplo nesse momento no meu ponto de vista são muito mais inspiradores e transformadores do que um discurso vazio, preparado e baseado na hipocrisia.

                E assim foi, mas os acolhimentos e aprendizados maiores estavam por vir! É realmente, uma cebola sendo descascada. Vamos tirando camadas e cada vez mais vamos aprofundando e novas questões vão surgindo. Veio a fase do deixar ir, de desapegar, veio a fase do aceitar. Aceitar os rótulos, aceitar uma nova condição. Aceitar uma vida simples, uma casa sem forro, uma parede sem massa corrida, um banheiro sem box, a terra na casa. Mas, esse aceitar a vida simples, ele se torna muito gratificante e mostra que estou no caminho certo, quando vejo por exemplo todo o meu lixo orgânico se transformando em composto para a horta. Essa que vai produzir parte do alimento para as minhas refeições e o mais importante: sem veneno e sem embalagens. Junto com tudo isso ver o meu volume de lixo 1/10 menor do que o que eu produzia antes. Me ver comprando dos meus vizinhos e evitando o transporte a longas distâncias, reduzindo a minha contribuição para a emissão de gases, gasto de combustíveis, gasto de energia, enfim inúmeros impactos que estão envolvidos na cadeia do consumo. Quando olho pra floresta ao meu redor, vejo lindas aves no meu comedouro que sempre fez parte de um grande sonho, acordar e tomar café vendo os passarinhos, quando vou a cachoeira do lado de casa, quando abraço os meus vizinhos, quando recebemos visitas sem marcar, quando se sente todo amor e afeto, eu só penso: era isso, isso que eu sou, a essa vida que eu pertenço. Uma vida com tempo, com mais afeto, com mais comunhão com a natureza, com irmandade, era disso que eu precisava. EU SOU, agora sim sou, apenas sou bem sucedida. E foi o momento de retornar ao sentimento da infância, com toda a pureza da minha alma e pela segunda vez acordar de mais um sonho nessa vida!

                Apesar de ainda estar no processo de transição, bem transição mesmo, em alguns momentos sinto que sai da cidade, mas a cidade ainda não saiu de mim. Até pela forma de como pensar ainda em obter dinheiro para me manter totalmente ainda voltado ao mesmo sistema da cidade, sem ainda focar todos os meus esforços e energia para a autosustentabilidade  e autossuficiência alimentar, considero que estou no caminho e todos esses processos fazem parte da transição.

                Só tenho a dizer que ter decidido ser o que já sou e o que sempre esteve aqui dentro foi uma das melhores decisões da minha vida! Se queremos sobreviver neste planeta e deixar com que as próximas gerações possam existir, precisamos agir, agir agora! E o agir parte de dentro de nós, das nossas ações diárias e não do nosso discurso. A única saída para uma nova terra, com a natureza preservada e pessoas felizes é a construção de uma nova sociedade e eu acredito que pautada na simplicidade e união. Longe dos véus que nos fazem acreditar que devemos competir e que precisamos ter tudo o que pudermos. Vamos de fato SER, apenas SER o que SOMOS! E continuo com as aves, que me acompanharão pelo resto da vida, observando aves, inspirando pessoas através deste lindo portal para a natureza e continuando a minha luta diária para que esses lindos seres continuem colorindo os nossos dias.

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2 comentários sobre “Observação de Aves e o Amor a Natureza

  1. Boa tarde
    Eu sou magno Pinella tenho seis alqueires de terra faço parte de um projeto de água e floresta e tenho plantações de maçã e pêssego entre outra tenho interesse em transformar a tbm em áreas de observação de pássaro preciso de ajuda e fica numa área de mata atlântica em Lídice distr.de rio claro.rj

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